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Presente no Passado

Hoje participei no Presente no Futuro (http://www.presentenofuturo.pt/). Vim para casa frustado, angustiado, com um sentimento de impotência. A pergunta que mais me ocorria é porque é tão difícil utilizar o melhor conhecimento do presente sobre 'organizar a acção', neste caso a acção de debate, de perspectivar uma sociedade, a portuguesa em 2030 ?

Sobre a intenção ?
Tirar as pessoas do presente, coloca-las a sonhar um futuro, vários cenários com que pudessemos reflectir. E depois fazer o caminho contrário. Como posso construir esse futuro a partir do presente ? Quais as decisões ?
Tentou-se que o formato fosse diferente, mais informal. Que houvesse encontros inesperados, que pudessem fazer a diferença.

Gosto da intenção. Partilho a ambição. Não é daqui que vem a frustação.

Sobre a conversa ?
Debate ('downloading', segundo a teoria do presencing, www.presencing.com). Pouco ou nenhum diálogo. O que vi em todos os painéis e no almoço foi variações de "do meu argumento é melhor que o teu"; muito pouco ouvir; muito pouco co-criar. Fala-se do passado, critica-se o presente na lógica do "acho que". Muiot focado numa parte. Sem visão do todo. Sem discutir a parte mas com o contexto do todo - discuto a perna do elefante sabendo que é um elefante e não apenas como algo duro e grosso a minha frente. Muitos poucas ideias e nenhum cenário de Portugal em 2030. Não se sonhou. Não conseguimos, enquanto colectivo descer no U (presencing).

Mas não foi a conversa, em forma de debate, que criou a frustação. Então o que foi ?

Sobre a conferência ?
Vi, falei e ouvi pessoas boas, com vidas integras, com trabalho feito com ideias, com energia. Quer participantes, quer oradores. Vi inteligência em todo o lado, uma energia canalizada para dizer mal, outra para tentar gerar ideias, outra para tentar vencer o debate, ... mas energia.

Senti-me muito bem acolhido. Todos os pormenores foram bem cuidados. A organização era boa. Atenciosa. O ambiente era acolhedor. Os momentos pensados para o contacto. Para ser descontraído, para estar quase no café (mas não estávamos; o formato era de downloading! - ver sobre a conversa). Gostei da organização.

Ou seja, boa organização. Boas pessoas. Energia. Também não foi aqui que foi gerada a frustação. Onde foi então ?

Occorre-me uma imagem...

Imaginem um terreno, lavrado, aberto, largo, onde não se vê o fim. Algures uma construção de arquitectura moderna, talvez uma adega. Uma pala sai de uma parede branca. Tem a altura de uma pessoa e talvez 3 metros de comprimento. Por debaixo da pala, uma árvore, faz força sobre a pala. Esta atrofiada, não se desenvolveu. Está contorcida, obrigada a descer. Forçada a não deixar a sua natureza desenvolver. São poucos os seus frutos mesmo sendo época de frutos. Os poucos são pequenos e nada convidativos. Era como se o potencial da árvore tivesse ficado pelos 2 dedos, quando poderia ter feito 5 dedos como os nativos da sua espécie.

Olhando para esta paisagem, um observador questiona-se, o que faz aquela árvore debaixo daquela pala ? A semente lançada um pouco mais distante, teria dado uma árvore forte e robusta, com frutos viçosos. Seria esteticamente relaxante. Belo.

Terá sido fruto do acaso ? Terá a semente sido transportada pelo vento e germinado naquele local ? Se sim, compreende-se o resultado, afinal não houve a intenção de... o acaso da natureza, o seu método, assim o determinou. Naquele momento não havia o conhecimento da pala e dos constragimentos.

Terá sido com intenção ? Se sim, foi com a consciência da pala e da restrição que esta seria para uma árvore desta natureza, que se desenvolve muito para lá da pala ? Ou foi sem consciência, como seria o resultado de quem plantou não ter o conhecimento que esta árvore se desenvolvia desta forma ?

Poderia acontecer o belo, caso a semente caisse fora da pala ? Poderá de facto a pala ter criado o ecosistema favorável ao desenvolvimento da árvore, facto que não aconteceria se a semente estivesse fora da pala ?

Não conseguimos responder. Mas o narrador sabe - talvez pelo assobio do pássaro próximo - que a árvore foi plantada por uma criança que queria proteger a árvore. Que a amou e cuidou. Que a fez crescer. E todos sabemos que não se recusa nada a uma criança, muito menos quando ela esta disposta a amar.

Voltando a nossa conferência, vejo a conferência como a árvore que se desenvolveu debaixo da pala, organizada por uma criança cheia de amor mas que não usou todo o conhecimento que tinha ao seu alcance para proteger a árvore no futuro, não a protegendo no presente.

Na sala havia muito potencial, muito conhecimento. As condições, a intenção apontavam para um potencial de 5 dedos. Mas ficamos em 2 dedos. O que foi então a nossa pala ?

O métodos utilizados para facilitar não foram os melhores métodos, não foram os métodos mais adequados a natureza da conferência. Não foram os melhores métodos que já fomos capazes de produzir (saber humano). Tudo veio de cima. Nós recebemos. Fomos passivos. Não conseguimos realizar o potencial latente da conferência. Estava tudo lá. Não esta a a tecnologia para potenciar a inteligência colectiva. O que poderiamos ter usado ? World café (http://www.theworldcafe.com/), Open Space ( http://www.openspaceworld.org/), Future Search (http://www.futuresearch.net/), appreciative inquiry (http://centerforappreciativeinquiry.net/), dialogue (http://ncdd.org/), presencing (www.presencing.com), whole-scale change (http://www.wholescalechange.com/), scenario thinking (http://scenariothinking.org/) ... combinação de vários, só para citar alguns exemplos; tudo métodos desenvolvidos para co-criar, para crescermos em conjunto. Métodos que não assume que há uns que sabem mais e tem a verdade; antes que há uns que sabem de um ponto de vista e outros que podem complementar, que podem gerar novas ideias/ perspectivas sobre esse ponto de vista. Métodos para potenciar o saber de uma população interessada. Vem de baixo e do meio. Somos activos. Potenciamos todas as nossas capacidades. Criamos uma inteligência colectiva.

A minha frustação resulta de ter visto todo o potencial, todo o amor, empenho e dedicação colocado na organização, ver a árvore da consciência colectiva estar a ficar contorcida, disforme, só concretizando os 2 dedos do seu potencial porque não estavamos a usar a tecnologia adequada para facilitar a emergência de toda essa energia e criatividade. Há muita inteligência na organização e nas pessoas a volta. Porque não se chegaram aos métodos referidos ou porque se decidiu não os isar ? E não tentamos. É daqui que se gera a frustação.

Não posso prometer que se tirássemos a pala haveria as condições para a árvores da consciência colectiva desenvolver no seu potencial. Talvez não. Mas o sonho de tal beleza inspira-nos para tentarmos. Há resultados, mas toda aquela energia e esforço mereciam mais e sabemos que podiam ambicionar mais. Não arriscamos. Ganhámos pouco. Muito pouco.

Não posso deixar de ver este evento como uma metáfora do Portugal contemporâneo. Estamos todos muito emprenhados e a gastar muita energia para termos 2 dedos. Não estamos a conseguir perceber que, se mudarmos a forma como nos organizamos, se utilizarmos as tecnologias adequadas, neste caso de colaboração, de facilitação, conseguimos ambicionar os 5 dedos, com menos esforço e mais satisfação. Não sabemos que é possível. Estamos agarrados a perna do elefante e pensamos que se trata de um pilar. Não percebemos que é um elefante.

É daqui que resulta a minha frustação.



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