Avançar para o conteúdo principal

Correndo a democracia...

Um grande atleta, por exemplo na maratona, quando nasceu não sabia andar. Teve primeiro que nascer, ganhar sentidos para 'sentir' o mundo, ganhar força muscular, desenvolver o cérebro para articular/ orquestrar e treiná-lo nessas funções, até começar a arriscar, a levantar-se do chão e dar os primeiros passos. Muitas acções foram realizadas, muitas tentativas, muitos erros, até que uma criança inicie a marcha. Dai até corre são mais uns tantos... depois crescer, desenvolver-se, ... algures no caminho começar a treinar a corrida, aprender a técnica, competir, treinar, exercitar todos os dias, até ser capaz de fazer a maratona e ganhar a medalha de ouro nos campeonato do Mundo ou nos Jogos Olímpicos. Pelo meio houve a família, as sucessivas escolas, um ou mais clubes, e muitas corridas, provas, treinos, ... muita prática. Muita oportunidade de falhar, de ver como é fazer bem.

Mas o que é que a maratona tem a haver com a democracia ? Formulando de outra forma, o que correr a maratona e o processo para lá chegar me mostra sobre a democracia ?

O ponto fundamental é que, até chegarmos a adultos e começarmos a votar, a democracia não é exercitada em lugar nenhum. Talvez nas associações... quantas se gerem democraticamente ? As assembleias de condóminos, os sindicatos, os partidos, as empresas, ... tudo em adulto. Assumindo que nestes sítios se pratica a democracia, a coisa só se exerce em adulto, o treino começa quando a competência já é necessária. Seria correr a maratona pela primeira vez no campeonato do Mundo, depois de ter visto umas quantas vezes na TV.

Sobre a questão de ser democrática a gestão de uma empresa, associação, partido e afins, a minha ideia é que não é. Tb sou da opinião que o nosso sistema é uma ditadura de 4 em 4 anos. Nós não participamos na decisão nem na organização da acção colectiva. Nem na escolha das prioridades. Tudo isto é feito por terceiros em processos mediados e intermediados.

Para se ter uma democracia tudo isto tem que começar desde muito cedo e muito abaixo. Nas famílias, mas comunidades locais, em cada empresa, em cada bairro. Temos que deixar de ser hierarquias e passar a colaborar, a fazer uso da inteligência colectiva, a ter métodos e tecnologias de organização que promovam a colaboração, a decisão e a acção responsável. Em cada sítio se treina. Em cada 'sítio' se analisa "o que sinto", "porque estou zangado com o outro", "como podemos ter os dois o que queremos", ... é este exercício, feito diariamente, desde o berço, que nos leva a poder ter um sistema democrático global, a um nível de uma sociedade, que funcione, onde cada um acredita no outro. A nossa democracia funciona tão bem como o atleta que vai correr a maratona pela primeira vez. E que face à falha diz que a culpa é do outro e do sistema. Tenho que saber lidar comigo e com as minhas insuficiências e grandezas. Tenho que saber lidar com o outro, que é humano como eu. E isto treina-se desde a mais tenra idade.

Para correr a democracia temos que começar a andar. Este é o défice democrático da nossa sociedade. As nossas formas de organização não são democráticas porque nós não sabemos correr a maratona (digo a democracia), porque delegamos noutros, pedimos que façam por nós e depois não gostamos do que eles fazem. Cada um de nós tem que saber correr a democracia. Poucos vão ganhar a medalha de ouro nos campeonatos do Mundo, mas a nossa sociedade irá funcionar muito melhor.

Impõem-se que mudemos a forma de nos organizar, como indivíduos, comunidades e organizações e que possamos todos começar a correr a democracia todos os dias no nosso dia a dia, na construção da nossa comunidade, das nossas organizações, das nossas famílias. Só assim vamos construir uma sociedade diferente.

Outros posts relacionados:
pessoa, comunidade, organização
Manifesto empreendedor
Da natureza do sistema democrático
Uma vida equilibrada (princípio do 1/3)
Revolução controlada
Caso Islândia. Teremos a coragem ?
Programa de Acção Política ACREDITAR



Comentários

Mensagens populares deste blogue

As minhas práticas

Várias pessoas a minha volta tem-me perguntado sobre as minhas práticas, diárias, semanais, mensais, para me manter integro, inteiro, autêntico. Aqui resumo as que tenho praticado:

Diárias (ou praticamente)
- Meditação (aprox. 1h)
- Journaling
- Dormir pelos menos 7 horas
- Beber 1 a 2 litros de água (procurando que seja o mais próximo possível de água de nascente)
- Alimentação consciente: vegan; 30% de crus; tentativamente biológica, local, de comércio justo; sem uso de açucar adicionado, alcool, café, sal refinado; com uso consciente de glutén, soja, sal e cereais integrais
- Jejum de 14 horas
- Andar o máximo que puder
- Leitura de 1 hora (ou visionamento de documentários e/ou filmes ou visita a exposições/ museus)
- Estar diariamente com os meus filhos e companheira
- Procurar um equilíbrio entre eu e a companheira no dia a dia da família (e.g. logistica, filhos)
- realizar tarefas comuns de forma mindfulness (e.g. arrumar a cozinha, conduzir, brincar com os miudos)

Semanais
- P…

Leitura 'reinventing organizations'

Li a pouco um dos mais estimulantes livros sobre o tema das organizações, seu desenho, propósito, estratégia, liderança, empreendedorismo e casos.

Partilho o livro e duas palestras sobre o tema

Livro (Frederic Laloux): http://www.reinventingorganizations.com/ (há uma versão low-cost em formato digital)

Palestras:
(2014) https://www.youtube.com/watch?v=gcS04BI2sbk (1h15 m) - boa exposição do tema; perguntas e respostas fraco

RSA (Jan.2015): https://www.youtube.com/watch?v=QA9J-aKkOAI (~25 m) - exposição mais resumida; excelentes perguntas e repostas


Este livro permitiu-me observar que:
- Safira (1996-2005) era laranja com muitas praticas de Verde
- darwin (2005-2011) era verde com algumas práticas de Amarelo
- João Sem Medo (2011-) é amarelo (ainda com muito verde)

Por aqui tem se observa o meu nível de consciência e a caminhada. Foi um grande livro para mim. Sinto que é um grande livro para a humanidade em particular para quem se foca no tema de como organizamos a nossa acção.

Este liv…

Organizações de comuns: a emergência de um novo conceito de propriedade

Imaginem uma estrutura organizacional formada por 3 aneis, assim como o planeta Terra (Núcleo, Manto e Crosta).

O 'Núcleo' é formado pelas relações entre as pessoas que trabalham na organização (e.g. gestores, empregados), quem esta serve (e.g. cliente, utilizadores) e quem é necessário para o serviço (e.g. fornecedores, parceiros). Vamos chamar a este o 'anel da missão'. É um anel de nomeação automática, i.e., se estiver a ter um destes papeis, pertence automaticamente a este anel com os respectivos deveres e direitos. Ou seja, se sou empregado nesta organização pertenço automaticamente a este anel e não tenho como não escolher pertencer.

O 'Manto' é formado por todos aqueles que já estiveram no núcleo executivo e que já não estão, por terem deixado de ser clientes ou utilizadores, parceiros ou fornecedores ou porque se reformaram ou foram executar funções para outras organizações. Vamos chamar a este o 'anel do conhecimento'. É também um anel de nome…