quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Correndo a democracia...

Um grande atleta, por exemplo na maratona, quando nasceu não sabia andar. Teve primeiro que nascer, ganhar sentidos para 'sentir' o mundo, ganhar força muscular, desenvolver o cérebro para articular/ orquestrar e treiná-lo nessas funções, até começar a arriscar, a levantar-se do chão e dar os primeiros passos. Muitas acções foram realizadas, muitas tentativas, muitos erros, até que uma criança inicie a marcha. Dai até corre são mais uns tantos... depois crescer, desenvolver-se, ... algures no caminho começar a treinar a corrida, aprender a técnica, competir, treinar, exercitar todos os dias, até ser capaz de fazer a maratona e ganhar a medalha de ouro nos campeonato do Mundo ou nos Jogos Olímpicos. Pelo meio houve a família, as sucessivas escolas, um ou mais clubes, e muitas corridas, provas, treinos, ... muita prática. Muita oportunidade de falhar, de ver como é fazer bem.

Mas o que é que a maratona tem a haver com a democracia ? Formulando de outra forma, o que correr a maratona e o processo para lá chegar me mostra sobre a democracia ?

O ponto fundamental é que, até chegarmos a adultos e começarmos a votar, a democracia não é exercitada em lugar nenhum. Talvez nas associações... quantas se gerem democraticamente ? As assembleias de condóminos, os sindicatos, os partidos, as empresas, ... tudo em adulto. Assumindo que nestes sítios se pratica a democracia, a coisa só se exerce em adulto, o treino começa quando a competência já é necessária. Seria correr a maratona pela primeira vez no campeonato do Mundo, depois de ter visto umas quantas vezes na TV.

Sobre a questão de ser democrática a gestão de uma empresa, associação, partido e afins, a minha ideia é que não é. Tb sou da opinião que o nosso sistema é uma ditadura de 4 em 4 anos. Nós não participamos na decisão nem na organização da acção colectiva. Nem na escolha das prioridades. Tudo isto é feito por terceiros em processos mediados e intermediados.

Para se ter uma democracia tudo isto tem que começar desde muito cedo e muito abaixo. Nas famílias, mas comunidades locais, em cada empresa, em cada bairro. Temos que deixar de ser hierarquias e passar a colaborar, a fazer uso da inteligência colectiva, a ter métodos e tecnologias de organização que promovam a colaboração, a decisão e a acção responsável. Em cada sítio se treina. Em cada 'sítio' se analisa "o que sinto", "porque estou zangado com o outro", "como podemos ter os dois o que queremos", ... é este exercício, feito diariamente, desde o berço, que nos leva a poder ter um sistema democrático global, a um nível de uma sociedade, que funcione, onde cada um acredita no outro. A nossa democracia funciona tão bem como o atleta que vai correr a maratona pela primeira vez. E que face à falha diz que a culpa é do outro e do sistema. Tenho que saber lidar comigo e com as minhas insuficiências e grandezas. Tenho que saber lidar com o outro, que é humano como eu. E isto treina-se desde a mais tenra idade.

Para correr a democracia temos que começar a andar. Este é o défice democrático da nossa sociedade. As nossas formas de organização não são democráticas porque nós não sabemos correr a maratona (digo a democracia), porque delegamos noutros, pedimos que façam por nós e depois não gostamos do que eles fazem. Cada um de nós tem que saber correr a democracia. Poucos vão ganhar a medalha de ouro nos campeonatos do Mundo, mas a nossa sociedade irá funcionar muito melhor.

Impõem-se que mudemos a forma de nos organizar, como indivíduos, comunidades e organizações e que possamos todos começar a correr a democracia todos os dias no nosso dia a dia, na construção da nossa comunidade, das nossas organizações, das nossas famílias. Só assim vamos construir uma sociedade diferente.

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