sexta-feira, 19 de julho de 2013

Breves notas sobre propriedade (enciclopédia 4)


Inspirado pela Enciclopédia 1, 2 e 3 do Gonçalo M. Tavares, Breves notas sobre, respectivamente, Ciência, Medo e Ligações, escrevo estas breves notas sobre 'propriedade'.

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Enciclopédia 4
Breves notas sobre propriedade


Meu, Minha

Meu marido. Meu filho. Meu almoço. Meu corpo. Meu desejo. Meu carro. Meu espírito. Meu trabalho. Meu dinheiro. Meu país. Meu saber.
Minha Mente. Minha mulher. Minha dor. Minha alegria. Minha felicidade. Minha auto-estima. Minha nacionalidade. Minha casa. Minha terra. Minha alma. Minha experiência. Minha família.

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Minha Família

Quem já passou por partilhas ?
Conhecia esta família ?
Irmão contra Irmão. Tio contra Sobrinho. Filho contra Mãe.

E para o que menos tem - de propriedade - um gato das botas.

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Economia I

Terra. Trabalho. Capital. Conhecimento.

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Terra I

Quem te nomeou dono ? Como te atribuiram senhor ?
(Ver filmes de Indios e Cowboys).

Como ganharam a posse da terra os contemporaneos Americanos ?

No mito que funda Portugal, o filho luta contra sua mãe. Para que ?

A posse da Terra tem sangue. Propriedade é um conceito construido com sangue.

Israel. Palestina. A lista é tão grande, quanta a dimensão da Terra.

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Trabalho I

Para além da formiga, quem trabalha ?
Certamente o burro, o boi. As pessoas. Como se 'faz' um boi ?
Com o amor de boi. Com o sangue da terra. Com o corpo da terra.

Pessoas são terra. Humus.
Trabalho é terra.

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Trabalho II

Houve um tempo que ser dono da terra, era ser dono das pessoas que viviam na terra. O trabalho (pessoas) e a terra eram geridos da mesma forma.

De que se tratou a guerra civil americana ? De um lado os que queriam continuar a ser donos dos seres humanos. Do outro os que achavam que já tinha sido suficiente.

(Como portugueses, conhecemos bem toda esta história, já que fomos actores principais.)

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Capital I

Que compras tu dinheiro ?
Petróleo. Ouro. Cobre. Carvão. Cimento. Areia. Sol. Água. Sementes. Cereais. Fruta. Legumes. 
Terra!

Trabalho, i.e., Pessoas.
Conhecimento, i.e., Pessoas.

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Capital II

Capital é terra.

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Capital III

Como te geres ?
Dou-te uma mão cheia de moedas. Devolves-me uma mão cheia de moedas mais umas quantas.

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Terra II

Toma este litro de gasoleo (petróleo). No final da tua viagem devolve-me 1 litro de petróleo mais qualquer coisinha.

Toma este bocado de terra. No final da tua utilização, devolve-me o bocado de terra mais qualquer coisinha.

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Trabalho III

Toma esta hora de trabalho e depois de a utilizares, devolves-me uma 1 hora de trabalho mais qualquer coisinha.

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Economia II

Como serias tu, Terra, se a terra e o trabalho fossem geridos como o capital ?
Em vez de um input que se consome - queima como o carvão - fosse um capital que se preserva e que tem juro ?

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Conhecimento I

O que, por se usar muitas vezes, tem mais valor. O que ganha valor, quanto mais se usa.

Conhece, quem sabe que conhece. 

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Conhecimento II 

Conhecimento é Pessoa.
Pessoa é terra.
Conhecimento é terra.

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Conhecimento III

Partilho o conhecimento - aberto se diz -  para que possas construir conhecimento. Co-conhecimento.

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Economia III

Como serias tu, Economia, se o capital fosse gerido como o conhecimento ? Co-capital ?
Quanto mais te uso mais vales. Se não te usar, deixas de valer.

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Economia IV

Terra. Terra. Terra. Terra.

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País

Terra com sangue. Diz quem é dono, senhor de quem.

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Propriedade I

Construção social que legitima a posse, à força, da terra.
A legitimação é social. Todos concordamos que a casa é tua; que a empresa é tua; que a fundação é tua; que o governo é teu; que é o teu país.

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Organização

Acção organizada de terra, trabalho, capital e conhecimento para um determinado fim ou propósito.

Quem é o proprietário ?

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Poder

O que tem a propriedade. A terra. Sobre a forma de terra, trabalho, capital e conhecimento.  

Terra, trabalho, capital e conhecimento formam um padrão, que se designa por país. 

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Política

Gestão do poder - dos que tem a propriedade: público e privado. 

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Democracia

Sistema de decisão política: público e privado.

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Trabalho IV

O trabalho na propriedade pública. Trabalho na propriedade privada.
Pessoa do tipo 'propriedade pública' que se segura com a insegurança da pessoa do tipo 'propriedade privada'.
Cidadão tipo 'propriedade pública'. Cidadão tipo 'propriedade privada'.

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Jovem

O que já chegou tarde à democracia - sistema de gestão sobre a atribuição da propriedade.

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Social

A acção humana que se organiza sobre as propriedades.

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Tipos de propriedade

Privada, a que não é pública. Beneficiam poucos. Todos assumem as consequências.
(se poluir o ar que passa no meu terreno, com a fábrica que lá instalei, para meu benefício, quem sofre ?)

Pública, a que não é privada. Beneficiam mais do que 'poucos'. Todos assumem as consequências.
(se a central nuclear do país vizinho der bronca, será que a fronteira evita os danos ?)

Seja uma pessoa ou uma instituição. Há ainda a colectiva ou social, a que sendo privada, envolve mais gente; tb outro tipo de gente; tem outro tipo de motivação (e.g. cooperativa, igreja). No final do dia, propriedade privada. Qual o poder da Igreja (instituição) Católica ?

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Terra I

O planeta em que os proprietários da terra fazem de conta que são Deuses no Olimpo.

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Propriedade II

O garoto Humano que se apropriou, indevidamente, de Gaia enquanto Saturno está de costas; e brinca aos Deuses, com sorriso maroto, dispondo da flora, fauna e diferentes ecosistemas.

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Propriedade III

O constructo que suporta os demais constructos. Omnipresente. Social. Economico. Político. Artistico. Científico. Antropológico. 

Como se muda um constructo ?

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Terra II

Como se muda o proprietário da Terra ?

sábado, 13 de julho de 2013

Reflexões do (tempo?) presente

Na sequência do artigo 'Don’t believe the hype: Here’s what’s wrong with the ‘sharing economy', por Milo Yiannopoulos o Fernando Mendes 'picou' a malta para reflexão que podem ver no facebook em (link). Vou dar os meus 5 céntimos por aqui (não me dou muito bem em escrever no facebook; coisa rápida ainda vai que não vai, mas algo com sentido, gosto de 'ir por aqui'.

1. Sobre a ideia/ conceito de empreendedorismo tenho reflectivo no contexto do João Sem Medo (vejam o nosso manifesto, a inovação da nossa proposta de valor e umas notas metafísicas sobre o tema10 mil horas. Empreendedor ?)

2. A dimensão económica de onde deriva o empreendedorismo também tem sido alvo de reflexão, pelo que sublinho a ética do gratuito, os conceitos de pessoa-comunidade-organização e uma notas sobre a acção de empreender)

3. Esta dimensão económica tem na sua base uma teoria de conhecimento, uma teoria sobre a forma como os humanos criam e gerem conhecimento: construtivismo, de onde deriva o construtivismo social (4 disciplinas de saber5 teses do paradigma do futuro8 saberes necessários à construção do futuro, ...)

4. Tudo isto é 'novo' e o novo tem as suas perplexidades (que não são nada novas!) - vejam o 'novo' visto por alguns poetas. Um dos desafios é a linguagem (ou falta dela, para criar novos modelos, por isso, no João Sem Medo estamos a usar metáforas, desde logo o João Sem Medo, mas também filmes de animação entre outros.

5. É neste contexto que vou enquadrar os meus comentários.

6. A Internet é um 'conceito' e um 'construto' muito interessante. Nasce do ventre de uma economia capitalista e liberal, utilizando métodos democráticos e de partilha existentes no universo cientifico. 3 grandes comunidades formaram a Internet que hoje conheçemos: a académica (A) que lhe deu origem (modelo das publicações cientíticas - daqui emergiram a governação e o valor da colaboração), a das margens/ fora do sistema/ anárquica / hacker (H) que lhe deu o seu modelo virtuoso (open source, que tem como origem o modelo das publicações científicas - daqui emergiu a ética e o valor da liberdade) e da economia/ empreendedores (E) que lhe deram a visibilidade, o valor económico e a escala mundial (modelos de negócio e o valor da transacção e da automatização - e.g. homebanking). Estas três forças estão sempre presentes em todos os construtos da Internet. Uma boa referência neste contexto é "The Internet Galaxy", M. Castels, 2001, Oxford.

7. Deste universo foi tomando forma (estrutura e susbstância), em cada geração tecnologica da internet, o conceito de crowdsourcing, que potencia cada uma das três forças referidas, bem como os cruzamentos entre elas - a brincar crowdsourcing = k1 * A + k2 * H + k3 * E. É aqui que cabem comceito como collaborative consumptionsharing economy, entre outros.

8. A 'economia da dádiva' é uma economia antiga que tem nos tempos modernos vários descendentes: 'economia da comunhão' no Brasil, 'moedas complementares' (e.g. troca, moedas locais), social (e.g. fundações, misericordias, mutualidades, cooperativas) e muitas outras variantes. Sugeria aqui o Sacred Economics do Charles Eisenstein, Great Transition do New Economic Foundation e o Economia Civil do S. Zamagni e L Bruni (que esteve esta semana em PT - vejam a talk dele no ISCSP em mytalks.pt). Para me referir a este tópico vou referir-me a 'economia da dádiva ou comunhão'.

9. Vários autores vem sublinhando, ao longo dos tempos, a importância que das relações humanas e em particular de uma relação primordial (sem a qual nenhum de nós existia, quer por concepção, quer por criação): 'amor' como lhe chamava Jesus Cristo, 'cuidar' como lhe chama Leoardo Boff, para citar 2 em tempos históricos diferentes. Autores como o Boff e o Eisenstein defendem que a nossa alienação destas relações primordiais e ancestarais ('Source' como lhe chama J. Jaworski) são fundadoras da crise do tempo presente (leia-se dos últimos 100 a 150 anos).

10. O artigo mistura todas estas dimensões. É normal. Estamos a viver tempos em que o 'novo' convive com o 'velho'; em que o 'novo' para se expressar usa a linguagem do 'velho', sobre a forma de metáforas, parábolas, ...

11. O artigo é escrito no contexto de uma economia capitalista e liberal, que vê a internet na perspectiva da comunidade E i.e. K3 >> K1 e K2. O conceito de 'sharing economy' enquadra-se neste contexto e não se confunde com o conceito de 'economia da dádiva'. Qual a diferença entre airbnb (https://www.airbnb.com/) e o couch surfing (https://www.couchsurfing.org/) ?

12. O artigo usa a dimensão do crowdfunding como recurso económico, fazendo uso de recursos que não estão monetizados e que podem ser. Aqui três conceitos económicos são fundamentais: propriedade, renda, 'disponibilidade do recurso'. É um modelo de negócio de multiparte.

13. A partilha é feita na perspectiva económica (troca tangível) e não na perspectiva da relação, do cuidado, do amor (troca intangível).

14. Ou seja, é um artigo escrito no contexto da economia capitalista e liberal, que vê o crowdsourcing na perspectiva económica das trocas tangíveis. Neste contexto vejo como correcto, dado que quer fazer estas distinções.

15. Então todos os que usam a internet estão neste contexto ? Não. A economia social vê a coisa de uma forma completamente diferente. O kiva.org é um exemplo. Mas os exemplos já são infinitos em todas as áreas de saber, desde a educação, comunicação, cidadania, ... vejam o TED, que sendo um exemplo disto tudo, tem muitos exemplos como seu conteúdo (e não vou usar a wikipedia como exemplo nestas notas ;-)

16. Neste momento há muita transformação social, novos modelos mentais (e.g. teoria integral do Ken Wilber, teoria da complexidade, psicologia positiva) que tem impacto em todas as dimensões, incluindo a económica. Veja-se a mudança de valores que Capra anuncia (Pensamento XI).

17. Eisenstein diz-nos que chegamos ao tempo em que as tecnologias do fogo (e.g. agricultura industrial) perderam a sua importância e que vamos assistir ao nascimento das tecnologias da água (e.g. permacultura).

18. A internet como 'construto' humano, com as suas três forças geradoras, será utilizada de acordo com  a consciência de cada tempo (como utilizaria a internet Jesus Cristo ? e o Gandhi ?).

19. O artigo tem a virtude de tornar claro de onde nasce este tipo de artefactos, que intenção servem e quais os resultados esperados. Na minha opinião esta história é a que esta a chegar ao fim (a que K3 é muito maior que K1 e K2). Uma nova nasce em que K3 terá mesmo peso ou será menor que os factores K1 e K2 - as possibilidades são muito mais e muito mais interessantes.

20. Para sublinhar este novo mundo, surgiu o Movimento Manifesto (http://www.movimentomanifesto.net/).