quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Metáfora

O 'Universo' é um 'relógio'. O 'Cérebro' um 'computador'. A 'pessoa' um 'sistema de informação'. Falamos de 'software' para o 'cérebro'. De mudar o 'sistema operativo' da 'pessoa'. De levar a 'máquina' (corpo) ao médico. Falamos em 'acelarar' como se faz a um 'carro', para falar da mudança na nossa vida. São infinitas. Também pensamos nas nossas organizações da mesma forma, i.e., as 'comunidades de pessoas' são 'máquinas'. Tem um aspecto em comum, traçam um paralelo entre algo natural (e.g. pessoa, cérebro, universo) e algo que foi desenhado e construído pela humanidade e que é não natural (e.g. relógio, computador, máquina, carro), sendo um produto da ciência e da tecnologia, i.e., da forma que, para conhecer, separa; da forma que, para conhecer, controla. Traçamos paralelos com as máquinas, porque nos sentimos máquinas: "fazemos parte da engrenagem". A nossa linguagem diz quem somos e como nos vemos. Pensamos em nós e nos outros como máquinas: "vou mudar-te" ou "vou concertar-te". Estas metáforas e analogias foram importantes no tempo da humanidade, em que se morria queimado porque ser era curioso ou se tinha opinião: 'porque' e 'para que' eram perguntas proibidas.

Este foi um processo natural. Que conhecimento dominávamos ? O das nossas 'máquinas'. Que conhecimento desconheciamos ? O da natureza. Construímos metáforas com o que sabiamos para conhecermos a natureza.
A estrutura da metáfora era: 'objecto natural' (desconhecido) - 'objecto artificial' (conhecido).

Nos dias de hoje, conhecemos melhor a natureza. Começamos a entender que nós somos natureza. Que em nós podemos encontrar todo o Universo (pelo menos, há quem diga multiverso ;-). Este conhecimento começa a mostrar a finitude das nossas metáforas, dos 'objectos' e dos 'sujeitos'. Percebemos que as fronteiras do que conhecemos estão sempre a alargar: por cada resposta, formulamos novas perguntas. A linguagem do presente aponta para 'devir', 'processo', 'relação'. Temos que alterar as estrutura das nossas metáforas. Talvez substitui-las por histórias - não foi assim que começamos ? Será que vamos as histórias, cada vez que não temos linguagem para conversar sobre o 'novo', o que emerge, o que quer emergir ?


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"A Vida não Cabe numa Teoria

A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós.
Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar"

Miguel Torga, in "Diário (1941)"

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