sábado, 2 de novembro de 2013

"Eu sei como resolver isto!"

Há poucos dias atrás (17.Out), ouvi-me dizer esta frase: "Eu sei como resolver isto!". O "isto" é a situação em que estamos envolvidos em Portugal e no Mundo. Isto, enquanto engraxava os sapatos. "Como ?" perguntaram-me. Ao que respondi:

"1º Assumindo que não sei resolver isto!
2º Certo que nós todos, em conjunto conseguimos resolver isto!"

Desde então tenho reflectido sobre estas duas frases. São na prática dois princípios de uma certa maneira de Ser. Ser no sentido de indivíduo, ser humano. Ser no sentido colectivo, ser sociedade. E configuram dois princípios de um programa político com ponto de partida epistemológico diferente.

- Assumir que não temos conhecimento para lidar com a situação actual.

Cada indivíduo assumir que não tem conhecimento para, sozinho lidar com a situação actual. A sociedade no seu conjunto assumir que não tem conhecimento para lidar com a situação actual. Na prática significa deixar 'morrer' ("letting go") o paradigma do comando e controlo, e a crença racional que o conhecimento já existe, só temos é que o descobrir. E que são as elites (o que quer que isto signifique) que vão descobrir esse conhecimento. Ou seja, a ideia de 'problema'. Talvez o que estejamos a viver não seja bem compreendido com a ideia de 'problema' e com a perspectiva 'problem solving' que tem como premissa que o conhecimento ('solução') existe para resolver o 'problema'. Com este comportamento estamos a gerar resultados colectivos que não desejamos e não estamos a ver como podemos fazer individualmente para alterar o rumo.

Ao 'deixar morrer' criamos espaço para o nascimento do 'novo'. Um novo que visa observar, sem julgamento, de mente e coração aberto, para sentir, com todos os sentidos, o que pede para nascer, que 'novo' terá que nascer para amanhã ser melhor. Um novo que não vê cada decisão como final, antes um protótipo que nos levará a aprender, a descobrir novo conhecimento, a colocar em perspectiva o conhecimento antigo - este novo está bem caracterizado no filme de animação da Dreamworks "Como treinar o teu dragão'.

Convocavamos tecnologias sociais que nos permitem lidar com este processo, como sejam presencing, inquérito apreciativo, design thinking, world café, open space, dragon dreaming, council, dialogo, coaching ontológico, mindfulness e tantas outras.

Ou seja, assumir que não temos conhecimento para lidar com a situação actual, paradoxalmente, é o que permite convocar outro tipo de ferramentas que nos leva a um novo paradigma, ao paradigma que temos que criar no conhecimento para lidar com a situação presente. o Otto Scharmer diz que é a aprendizagem com o futuro que quer nascer como complemento de aprender com base em padrões passados.

- Confiar que cada um de nós (e todos nós), colaborando, vamos conseguir criar novo conhecimento e co-criar novos modelos/ conceitos de sociedade

A colaboração tem na sua base elementos muito importantes como subsistência e a segurança, que não sendo suficientes, são condições necessárias - se luto para sobreviver ou se fujo da guerra como posso colaborar na criação de conhecimento ?

Temos que ter contextos, materiais e imateriais, que suportem esta colaboração e onde se utilizem as tecnologias sociais que referi anteriormente. Volta a ser necessário, mas não suficiente.

Por último as conversas entre as pessoas tem que atingir níveis de profundidade que tolerem o outro, a diferença, a multiplicidade, os diferentes pontos de observação e perspectiva. Cada pessoa fala para ser ouvida e não há conversa se não houver escuta - quem gosta de falar para o boneco ?

A alienação que hoje vivemos da condição humana, escraviza, como todos estamos a sentir e permite que a 'banalidade do mal' se exerça hoje de formas subtis e por cada um de nós, quando deixamos de reflectir sobre a condição que nos escraviza: a nossa alienação da condição humana, a nossa distância ao nosso Ser.

Precisamos de nos escutar a um nível profundo, humano. E para isso temos que estar ligados de forma diferente. Temos que confiar no outro, na sua humanidade, na sua condição de Ser. Tolerância. Perdão. Temos que suportar o crescimento espiritual do outro. Temos que permitir que o outro se cumpra, como refere Agostinho da Silva e com isso cumprir-nos a nós. O Leonardo Boff fala da ética do cuidar. O Dalai Lama da compaixão. O amor de Jesus de Nazaré. Um cuidar de si e do outro - só posso cuidar do outro se cuidar de mim. A compaixão para consigo e para com o outro - só terei compaixão com o outro se a tiver comigo próprio. O amor próprio e ao outro - só poderei amar o outro se me amar, se me aceitar. A confiança na colaboração assenta na condição de cada um de nós poder Ser. E aqui cada um de nós pode agir.


Com estes dois princípios podemos pensar na escola, no hospital, na empresa, na camara, no tribunal, no banco, na esquadra, no quartel, no ministério, ..

Cada instituição começar por assumir que não tem conhecimento ao presente para lidar com a situação. Libertando-se dessa carga, irá criar contexto para juntar 'todo o sistema' em novas conversa, que permitam imaginar futuros e começar a criar prototipos. Para suportar estas conversas, cada pessoa cuidará do seu Ser. E nos confiamos que os nossos concidadãos que estão naquela instituição, que foram socializados para saberem da sua arte (e.g. juízes, advogados, professores, cientistas) tem as competências necessárias para tomar as melhores decisões em nosso nome, pois eles também são cidadãos: são a parte que tem o todo.

E tudo muda, porque muda os conceitos que estamos a lidar. Mudou a linguagem. Mudaram as conversas. Mudou-se o Ser de cada um de nós. Mudou a sociedade.


A este programa político chamaria Nós, os comuns (We, the commons).


 

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