sábado, 24 de janeiro de 2009

Sobre velhos...

Um amigo enviou-me um texto que reproduzo abaixo. O texto fez-me lembrar uma reflexão que venho fazendo e qu já partilhei com alguns amigos: a necessidade de novos e velhos trabalharem em conjunto.

As razões são várias e de diferente natureza, a saber:
a) Porque os velhos sabem mais e os novos precisam saber mais de coisas tão simples como saber viver, saber ultrapassar os medos, a ilusões, as desiluções, ...

b) Porque a idade de reforma aumentou

c) Porque nascem menos 'novos'

d) Porque não é sustentável substituir conhecimento por inexperiência

e) Porque não é sustentável continuar a precarizar o trabalho jovem (veja-se Paris, Grécia, por exemplo)

f) Porque hoje os velhos são os nossos pais e avós e porque amanhã somos nós!

g) Porque não é humano institucionalizar aqueles que amamos!

Com a campanha do Mário Soares a presidência o tema foi muito falado. Também, sobre os últimos anos do papado de João Paulo II. Mas o tema desapareceu da agenda mediática. A continuada substiuição do 'velho', experiente por 'novo', inexperiente e precário é mais um dos sintomas que o modelo de desenvolvimento chegou ao seu fim. Não é tão mediatico como o colapso do sistema financeiro, mas os seus efeitos serão de fundo e as consequências de gerações.

Este é um dos grandes desafios do tempo presente.


Cortesia do Francisco:

“A propósito da morte de 3 escritores/editores e da metáfora do envelhecimento” por Francisco José Viegas in Ler, Janeiro de 2009

[...] ÀS VEZES ESQUECEMOS UM OU OUTRO NOME, DESSES QUE MUDARAM A NOSSA VIDA SEM O SABERMOS; MUITOS OUTROS FICAM ESCONDIDOS PELA POEIRA QUE ARRASTA CONSIGO O ESQUECIMENTO [...]

“[...] Ter conhecido estes três homens (António Alçada Baptista, Figueiredo de Magalhães, Rogério de Moura) de outro tempo foi uma honra – tomei deles coisas subtis sem dar por isso: a tolerância, o amor pelos livros, o respeito pelo passado, uma certa ideia de vida. Cada um à sua maneira, porque eram homens de gerações, ideias e origens diferentes.

Tem a ver com os velhos, acho eu. Em Portugal, as televisões mudam os apresentadores dos telejornais mal lhes notam as rugas. Há uns institutos que se ocupam da juventude (aqueles anúncios de TV, lembram-se?, com «jovens que gostam de moda, espectáculos» e falam com uma linguagem que abrevia as sílabas e elimina os ditongos). E aquele permanente elogio da «juventude», como se a «juventude» não fosse senão um estádio no crescimento das pessoas: saúde, bem-estar físico, apetite, mobilidade, corpos moldados segundo as regras. Nestas ocasiões lembro os «velhos» e as suas aventuras, os seus silêncios, a sua memória. O país combate as rugas sem as ter valorizado ou compreendido. Eu gosto de velhos. Tenho medo da sua sabedoria – porque é imensa, desafiadora- e aprecio-a. Acho que é um bem indiscutível. As sociedades acidentais esquecem os seus velhos, endeusam a «juventude», que é um estado ligeiramente flutuante e representa um mercado fabuloso, fácil e vulnerável. Mas a verdade é que este Ocidente despreza os velhos, abandona-os [...] . A falta de idade permite ao «jovens» dar pulos, erros ortográficos e passar noites em branco. Mas impede-os de apreciar outras coisas (a categoria mais próxima da «juventude» é a dos velhos gaiteiros: esses não farão nem uma coisa nem outra, morrerão de stresse) que só virão com o tempo. Prezar os velhos, é também prezar o tempo num mundo em que as novas gerações tiveram tudo prometido: um lugar no topo das coisas, a visão dos «vencedores», a fortuna, os caminhos abertos antes de chegarem, e o pavor dos desaires a que não conseguem resistir.

Em Dezembro passado – veio nos jornais- aumentou o número de velhos abandonados nos hospitais, entregues pelas suas famílias, acompanhados de números de telefone falsos para que ninguém fosse incomodado com um pedido, uma notícia, uma exigência. Um mundo sem disponibilidade para os velhos, sem generosidade nem compaixão, fria e sem paciência – e com vergonha dos seus velhos que incomodam e relembram que todos morremos e envelhecemos [...].

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